Do Complexo do Alemão para Harvard e o mundo

Aos 11 anos, Rene Silva fundou o jornal Voz da Comunidade para dar visibilidade ao Complexo do Alemão. Hoje, ele dá palestras no mundo todo e já foi até pra Harvard

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Eleito pela Forbes como um dos 30 jovens mais promissores do Brasil, Rene Silva começou seu primeiro empreendimento, o jornal Voz da Comunidade, com apenas 11 anos. Em 2010, quando tinha 16, ele cobriu em tempo real a ocupação do Complexo do Alemão através do Twitter e seu número de seguidores subiu de 400 para 32 mil. O trabalho de Rene apareceu na grande mídia e chamou a atenção de globais como Luciano Huck e Regina Cazé.

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A partir daí foi só sucesso. O Voz se destacou ganhando prêmios nacionais e internacionais, Rene criou uma ONG, expandiu seu trabalho para outras cidades e passou a rodar o Brasil e o mundo dando palestras (até Harvard já o convidou). Recentemente, o jovem esteve em Belo Horizonte, a convite dos Embaixadores de Minas, e nós fomos lá para conhecê-lo melhor. Confira a entrevista:

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Rene, você começou a empreender com apenas 11 anos. O que te motivou a criar o Voz da Comunidade?

A ideia surgiu pela necessidade dos moradores do Complexo do Alemão de terem acesso à grande mídia. Por morar dentro de uma favela do Rio de Janeiro, nunca me senti representado nos jornais. Quando aparecemos nas notícias, só falam de guerra e drogas. A favela é retratada como um inferno, como se tudo que houvesse aqui fosse a violência, e como se nós, moradores, nem existíssemos no meio de tudo isso. Por isso, queríamos um veículo de comunicação próprio que mostrasse o que tem de bom no Alemão, além de denunciar problemas cotidianos, como a falta de saneamento básico, de água e de luz, e cobrar soluções para eles.

Quem te inspirou ou te apoiou nessa trajetória?

O Voz da Comunidade foi muito inspirado em um jornal que existia na minha escola no Morro do Adeus (uma das três comunidades do Complexo do Alemão). Nele, os alunos relatavam problemas da escola e também divulgavam projetos internos. Três meses depois de entrar, eu pedi apoio para criar um outro jornal, dessa vez para toda a comunidade. Todo mundo me ajudou sem medir esforços, o que foi fundamental, pois eu não tinha recursos. Digamos que tudo começou como uma brincadeira de criança, mas várias pessoas já acreditavam no benefício que ele traria para a comunidade.

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Um desafio foi manter a publicação do Voz. Os professores e diretores fizeram até vaquinha, e eu corri atrás de investimentos através de anúncios de comerciantes locais. Porém, eu só tinha 12 ou 13 anos, então eles não acreditavam que eu era o autor do jornal e por isso não investiam. Assim, busquei outras maneiras, como comprar e revender doces na rua.

Depois, criei algumas estratégias para ganhar credibilidade. Coloquei minha foto no jornal para mostrar aos comerciantes que eu era de fato o dono. Outra estratégia foi cobrar apenas após o anúncio ter saído, com prazo de um mês. Com maior confiança, cresceu o financiamento.

Como é o ecossistema empreendedor do Complexo do Alemão? Você vê várias iniciativas como a sua acontecendo?

Eu acho que a maior potência de economia sustentável fica na favela. Muitos não acreditam, mas talvez seja a maior economia e também a maior rede de colaboração. Nesta crise, por exemplo, as coisas não mudaram tanto para nós graças à nossa autossustentabilidade. As pessoas na favela são criativas por natureza, conseguem superar obstáculos e encontrar novos caminhos. Não temos cursos para aprender criatividade – aprendemos tudo na prática e pela necessidade.

Acredito que, se as pessoas da favela comprassem só as coisas de dentro da favela, somente a cultura da favela, com certeza ela seria muito mais rica e poderosa do que ela é, pois alimentando o comerciante local, você fortalece sua comunidade.

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E quanto ao apoio e projetos sociais dentro do Complexo?

Hoje, no Complexo, acho que algumas empresas e também o governo estão indo pelo caminho contrário. Apesar da presença da UPP, a comunidade vive momentos críticos de tiroteio. Muitas empresas e órgãos estão recuando, saindo da favela, ao invés de tentar mudá-la de vez. Se querem transformar o Alemão, é preciso investir mais. Eu não vejo muitos projetos ou iniciativas visando empoderar os moradores.

Você já apareceu na lista da Forbes, na novela Salve Jorge, ajudou a escrever o livro “Voz do Alemão”, dá palestras no mundo todo, entre muitas outras coisas. Quais são os seus planos para o futuro? O que falta alcançar?

Eu acredito numa comunicação cada vez mais participativa, comunitária e hiperlocal. O futuro da comunicação tem muito a ver com o que fazemos com o Voz da Comunidade. A grande mídia está em crise, pois ninguém mais espera pra ver o que vai sair no jornal. Porém, as pessoas querem saber mais sobre sua comunidade, seu bairro, seu ambiente e menos do mundo. É nisso que eu trabalho e acredito.

Aqui em BH, visitei o Morro do Papagaio, conversei com jovens e empreendedores locais, e conversamos sobre criar um veículo de comunicação lá dentro para que eles se expressem. Eles também têm a necessidade de serem vistos, de se identificarem e de se expressarem, o que não encontram nos veículos tradicionais.

Para terminar, qual é o seu conselho para os jovens empreendedores?

Meu maior conselho é: planeje, pense no que quer fazer e como quer fazer, mas antes de tudo isso pense no porquê. Pense no que te leva a querer fazer isso e depois pense na solução, nos indicadores de resultado e tudo o mais. Se você não tem um motivo, você está errado. Depois disso, coloque a cara. Muita gente fica esperando patrocínio ou apoio e acaba não começando nunca. Então, comece logo, pois depois aparecerá apoio, financiamento e tudo mais. Muitas pessoas têm ideias e poucos estão dispostos a investir nelas. Investidores vão investir em projetos concretos, então acredite na sua ideia e comece.

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